Desde o seu lançamento, um dos principais pontos defendidos pelos investidores em criptomoedas (além, é claro, da tecnologia Blockchain) é a sua total descorrelação com o mercado financeiro tradicional.

Sendo uma moeda descentralizada, não regulada por qualquer país ou Banco Central e com um número limitado de Bitcoins disponíveis (21 milhões). O Bitcoin, e as criptomoedas em geral, rapidamente se tornaram as queridinhas dos investidores que tinham como objetivo se livrar das “amarras” do mercado financeiro tradicional e das moedas fiduciárias. Tão dependentes das políticas dos Bancos Centrais, das normas de órgãos reguladores e do acesso através do sistema bancário tradicional.

Isto foi verdade durante um bom tempo, enquanto esta classe de ativos permanecia distante do acesso de investidores institucionais. Entretanto, este comportamento parece ter mudado após a entrada massiva de capital institucional. Esta entrada foi possibilitada após a listagem de ETFs (Exchange Traded Funds) em muitas Bolsas de Valores importantes, como NYSE e a própria B3.

Podemos observar na imagem abaixo a evolução da correlação histórica entre o Bitcoin e a NASDAQ desde 2017. A correlação chegou a atingir 0,73 neste mês de fevereiro, muito próximo da máxima de todos os tempos (ATH) de 0,74 no ano de 2020.

Em outras palavras, as criptomoedas deixaram de serem criptomoedas, e passaram a ter um comportamento cada vez mais parecido com os ativos de risco tradicionais; como ações.

Seguindo a cartilha clássica, os comportamentos de ativos de risco são extremamente dependentes de alguns fatores como: crescimento (PIB), inflação e a política monetária dos Bancos Centrais.

Após a injeção massiva de liquidez durante a pandemia, e taxas de juros praticamente zeradas. Finalmente a conta chegou, e ela é cobrada na forma de inflação.

Também, segundo a mesma cartilha clássica, inflação alta é combatida com uma política monetária contracionista. Em outras palavras, aumento da taxa de juros.

Nesta mudança estrutural de cenário, com inflação e juros mais elevados, ocorre uma mudança de alocação nos portfolios. Ativos de risco e renda variável, em geral, são os prejudicados. Com o fluxo de capitais indo para: commodities, real-estate, renda fixa e metais preciosos. Ativos que tendem a manter o poder de compra dos investidores durante o período de corrosão do dinheiro, típico de períodos inflacionários.

Aprofundando a análise dentro da renda variável, empresas tidas como “growth stocks” (com fluxo de caixa majoritariamente no futuro) sofrem mais do que seus pares, as “value stocks”. Representadas por empresas maduras, bem estabelecidas e com fluxo de caixa no presente.

E, aparamente, as criptomoedas também entraram nessa dança. Se mostrando extremamente sensíveis às taxas de juros e política monetária dos Bancos Centrais. Não à toa, o Bitcoin já acumula uma queda de aproximadamente 50% desde a sua máxima histórica em novembro de 2021.

E a grande pergunta que paira sobre os investidores é: que rumo o Bitcoin e as criptomoedas vão tomar? A reposta é: depende! Essa dependência recai de como o mercado vê o Bitcoin, e também se irá acreditar nas próprias narrativas criadas.

Se o Bitcoin for, de fato, um safe haven para a inflação. Os preços devem reverter e começar a subir ao longo dos próximos meses. Voltando a se descorrelacionar dos índices de ações.

Porém, caso a atual narrativa não “cole”, o Bitcoin irá manter o seu comportamento atual e manter a correlação com os ativos de risco tradicionais. Ou seja, deverá continuar a ser penalizado com o novo cenário de taxas de juros estruturalmente mais altas no mundo todo.


ANÁLISE TÉCNICA

Observando o gráfico diário, fica nítida a clara tendência de queda. Após fazer um fundo na região dos $33.000, a moeda finalmente conseguiu um respiro. Entretanto, não conseguiu avançar no suporte perdido na região dos $45.500. Nesta região também estava a média móvel de 200 períodos, adicionando ainda mais barreiras nestes níveis de preços.

Após um período de consolidação (assinalado pelo retângulo) os preços finalmente cederam e cumpriram o seu objetivo, na projeção de 100% da consolidação anteriormente formada.

No momento, a briga ocorre na última retração de Fibonacci (61,8%) do último movimento de repique altista do Bitcoin.

Os preços se situam abaixo de ambas as médias móveis (20 e 200 períodos). E o RSI se situa em níveis “normais”. Ou seja, há espaço para novas quedas, visto que os vendedores ainda têm fôlego até atingir novamente regiões de sobrevenda.

No momento, fica desaconselhável a abertura de novas posições. O ponto de venda ideal já se distanciou muito. E trades na ponta compradora estão mais para “tentar pegar a faca caindo” do que efetivamente entrar em uma reversão concreta dos mercados.

Voltamos a olhar com carinho para trades na ponta compradora caso o mercado sinalize efetivamente a formação de um pivô de alta na atual retração de Fibonacci. Se não, os ávidos compradores devem esperar que os preços testem novamente o fundo na região dos $33.000.

Pedro Canto | Analista CNPI-T @ Hub do Investidor